Retrato da Cabotagem

Em palestra para embarcadores e transportadores, Leandro Barreto traduz em números as perspectivas da cabotagem

* Cleci Leão 

No mês de setembro, o Guia Marítimo promoveu um encontro entre embarcadores e transportadores para discutir as oportunidades da cabotagem em termos práticos. Acompanhamos uma série de questões e apresentações sobre os temas que hoje afetam o serviço de navegação doméstica para o transporte de cargas, um modal que vem crescendo de forma estruturada e constante na movimentação portuária do nosso país. Entre as diversas palestras com informações e discussões de qualidade, A Hora da Cabotagem contou com a presença do colunista Leandro Carelli Barreto, que produziu uma radiografia do mercado atual de cabotagem, não apenas com projeções, mas com dados atuais e concretos que contrapunham oferta e procura pelo serviço.

Entusiasmado, Barreto comparou a evolução da cabotagem ao crescimento chinês das últimas décadas. “O que é bonito de se ver nas estatísticas é que, enquanto o longo curso cresceu 270%, a evolução da cabotagem chegou a 1114% nos últimos 20 anos, com um crescimento anual de 13,3%, ou seja: mais que o crescimento chinês. É lógico que a base era pequena, porém as estatísticas já mostram que hoje, de cada quatro containers nos portos brasileiros, um já é de cabotagem”.


Histórico e perspectivas

O crescimento é exponencial: em 2010, o Brasil oferecia uma capacidade nominal de 8.800 Teus dirigidos à cabotagem, um número que, em agosto de 2016, já chegava aos 12.000 Teus, ou seja: 36% de crescimento, ao passo que as atividades de Longo Curso caíram 16% no mesmo período. Mas, em termos práticos, quais são as informações de que o embarcador realmente precisa para avaliar a disponibilidade e as oportunidades da cabotagem? Em um panorama completo do serviço no País, Leandro Barreto demonstrou as rotas e escalas dos serviços atuais de cabotagem, que estão visíveis nos gráficos a seguir.


Onde se desenvolve a cabotagem?

De Norte a Sul do País, ele traçou um comparativo da quantidade de escalas nos portos dos últimos cinco anos, de modo a verificar onde tem havido crescimento e onde se perderam serviços. Algumas mudanças mereceram destaque justamente por traduzir a evolução do mercado: enquanto Santos e Manaus se mantiveram estáveis, Vila do Conde, que não tinha escalas, agora recebe um serviço. Entre outras perdas e ganhos, o total de números de escalas aumentou, de 32,5 para 36 no comparativo anual, ou seja: hoje há 10% mais escalas do que em 2010.

Quais são os serviços?

O Brasil tem basicamente duas rotas principais, sendo a primeira para atender ao fluxo comercial entre Manaus e a região Sudeste, e a segunda conectando Sul e Sudeste ao Nordeste – e vice-versa.

No serviço semanal para Manaus, operam dez navios, sendo seis da Aliança e quatro do acordo entre Mercosul e LogIn, todos de bandeira brasileira, somando uma capacidade nominal de 6.660 Teus, com 880 plugs para refrigerados. De modo geral, trata-se de uma frota nova, com média de 2,6 anos de idade (Aliança) e 5 anos (Mercosul/LogIn). Já na rota do Norteste ao Sul do Brasil, são oito embarcações, das quais três são afretadas de bandeira estrangeira, com capacidade nominal de 5.150 Teus, 910 plugs e idade da frota mais avançada: quase 12 anos, em média. “Ainda assim, assumindo que a idade média mundial dessas embarcações é de 25 a 30 anos (ou pelo menos vinha sendo, antes de o mundo inteiro enfrentar os problemas do overcapacity), ainda se tem 13 anos até que esses navios sejam levados a scrapping”, comentou Leandro Barreto.

Quem utiliza?

Do ponto de vista da indústria, já vemos adesões de embarcadores de vários segmentos, entre eles eletrodomésticos, alimentos e bebidas, construção, limpeza e higiene, químicos, automotivos, metalúrgico, pneus, papel e celulose e seus subsetores. Marcas de peso como Itaipava, Sadia, Yoki, Votorantim, Colgate, Johnson, Bombril, Pirelli, Bosch, Sony e Yamaha utilizam a cabotagem com resultados já bastante expressivos.

Para onde crescer?

A capacidade de expansão da atividade ainda permite um aumento de 30% sobre os atuais 16 navios, chegando a oferecer 15.000 Teus. Apesar de a lei exigir a bandeira nacional, para cada embarcação de determinada capacidade em Teus que se nacionaliza ou se constrói no Brasil, é permitido afretar um navio de bandeira não brasileira de casco nu com a mesma capacidade em Teus. “Pelas contas que consideram a oferta atual de embarcações brasileiras, ainda temos crédito para 6 navios afretados e, além disso, a LogIn tem 3 navios em construção que vão adicionar mais 17% de capacidade nos próximos anos, (2,800 Teus), chegando a um total de 8.400 Teus”.

Com bom humor, Barreto concluiu a sua apresentação com um recado encorajador: “se, por um acaso, algum embarcador ainda tinha receio de aderir à cabotagem por conta da capacidade do mercado, pode vir que dá”.


Escrito por:

Leandro Barreto

Administrador de empresas, especializado em economia internacional pela Universidade de Grenoble e em Inteligência Competitiva pela FEA/USP. Há mais de dez anos atuando no segmento, foi gerente de Inteligência de Mercado na Hamburg-Süd, professor pelo IBRAMERC e Diretor de Análises da Datamar Consulting. Atualmente, coordena projetos independentes de consultoria com forte atuação junto a armadores, autoridades portuárias, embarcadores e entidades públicas voltadas para o desenvolvimento do setor portuário.



2 Comentários

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    alvaro pereira

    04/10/2016 12:43

    caro LEANDRO , gostaria de contato contigo me confirme seu email , gostei muito de seu trabalho parabens

  • P
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    Paulo

    04/10/2016 09:15

    Olha aí , literatura pra vc se divertir ...