A Balança e a Economia

Superávit recorde no acumulado de 2016 mostra relevância do comércio exterior para o Brasil

Depois de um semestre de câmbio mais favorável às exportações, estava ansioso para compilar os dados da balança comercial brasileira divulgados pela Secex/Aliceweb, principalmente após ter lido a matéria "Balança comercial tem maior saldo para o 1º semestre em 28 anos".

Apesar de alguns analistas avaliarem que o resultado só foi possível porque a queda das importações em US$ foi maior do que a queda das exportações em US$, a notícia é indiscutivelmente boa para a balança de pagamentos do país.

Além disso, ao transformar de US$ para R$ a evolução da nossa balança comercial, é possível perceber um crescimento bastante consistente do comércio exterior brasileiro. Veja o comparativo das linhas vermelha e azul do gráfico seguinte. O crescimento nominal médio em R$ das exportações nos últimos 15 anos foi de 13%, enquanto as importações cresceram, em média, 12%, ou seja: índices muito acima do crescimento médio do PIB ou da inflação no mesmo período, e que indicam que o comércio exterior está se tornando cada dia mais relevante para a economia nacional.


No entanto, tendo em vista que nosso foco é muito mais na logística do que na teoria econômica, as áreas em verde e amarelo do gráfico acima demonstram que, em volume, o crescimento também é bastante consistente. Uma análise um pouco mais detalhada dos dados do primeiro semestre de 2016 em volume sinaliza alguns pontos bastante importantes, tais como:

• Em volume, as exportações cresceram 11% (contra uma queda de 4% em valor), enquanto as importações caíram 11% (contra uma queda de 28% em valor);

• mesmo com a queda de 16% na Corrente Comercial do Brasil (Imp + Exp, em valor), em termos de volume, o comércio exterior brasileiro cresceu 6%;

• o modal marítimo, e consequentemente os portos, continua sendo responsável por 95% do comércio exterior brasileiro em volume;

• com exceção do Café (-9%), Tabaco (-2%) e Tecidos (-8%), todos os demais grupos de mercadorias exportadas apresentaram crescimento de volume nesse período;

• no ranking dos grupos de mercadorias exportadas que reportaram os maiores incrementos de volume no 1º semestre, merecem destaque: Grãos e Cereais (31%), Açúcar (21%), Madeira (24%), Alimentos e Bebidas (69%), Plásticos e Resinas (63%), Cerâmicas (28%), Veículos e Partes (31%) e Algodão (43%);

• excluindo os grupos de mercadorias que possuem instalações portuárias próprias/dedicadas - Minério (que cresceu 6%) e Combustíveis e Lubrificantes (que cresceu 2%) - o crescimento médio das exportações em volume por via marítima sobe para impressionantes 21%;

• apesar do câmbio desfavorável, os volumes importados de Fertilizantes cresceram 26% - o que sugere boas perspectivas para a Safra 16/17 de grãos; e

• excluindo Combustíveis e Lubrificantes (que caiu 17%), a queda das importações em volume por via marítima foi de 7%.

Em outras palavras, os dados demonstram que o Brasil vem consolidando sua posição de "Celeiro do Mundo" e, com isso, o volume de containers, granéis vegetais e até mesmo carga geral movimentado pelos portos brasileiros continua crescendo, apesar da desaceleração do comércio internacional, o que se traduz em boas oportunidades de investimentos.

Contudo, continuo com a sensação de que, enquanto notícias ruins continuam chegando a nós, precisamos correr atrás das boas notícias, a fim de anteciparmos as verdadeiras oportunidades que existem no mercado.

Escrito por:

Leandro Barreto

Administrador de empresas, especializado em economia internacional pela Universidade de Grenoble e em Inteligência Competitiva pela FEA/USP. Há mais de dez anos atuando no segmento, foi gerente de Inteligência de Mercado na Hamburg-Süd, professor pelo IBRAMERC e Diretor de Análises da Datamar Consulting. Atualmente, coordena projetos independentes de consultoria com forte atuação junto a armadores, autoridades portuárias, embarcadores e entidades públicas voltadas para o desenvolvimento do setor portuário.



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