Parceiros comerciais do Brasil

“Trocando em miúdos”, o fluxo do comércio exterior do País mostra diversificação de mercados e força do agronegócio

Em continuidade à análise da performance em volume do comércio exterior brasileiro no 1º semestre 2016 - ainda com base nos dados divulgados pela Secex/Aliceweb, julguei interessante analisar nesta semana os principais parceiros comerciais do Brasil nesse período sob a ótica dos volumes transacionados, ou seja: exportações e importações. Para isso, usarei a mesma metodologia dos últimos dois artigos: "exclusão da análise dos volumes de Minérios e Combustíveis visto que, apesar de juntos representarem cerca de 62% da movimentação portuária do Brasil em volume, o modelo de negócios dessas duas commodities demanda corredores logísticos eficientes/eficazes - em sua maioria próprios - e, portanto, não costumam contribuir para o chamado "gargalo logístico" brasileiro já que, em vez do caminhão, utilizam majoritariamente ferrovias e dutovias para acessar e sair dos portos".

Excluindo da base de dados os Minérios e Combustíveis, os 10 maiores parceiros comerciais do Brasil respondem por quase 60% da nossa movimentação portuária em volume, sendo que somente a China representa 27%. Apenas a título de informação, se fossem incluídos Minério e Combustível nessa análise, a participação chinesa subiria para 39% da movimentação portuária brasileira em termos de volume.

Como se vê na tabela I abaixo, no que se refere às exportações deste 1º semestre de 2016, Japão (133%), Coreia do Sul (60%), Argentina (24%) e Holanda (23%), por terem crescido acima da média (21%), foram alguns dos destinos que mais ajudaram puxar a média para cima, enquanto que nas importações, China (-30%), e Rússia (-19%) foram alguns dos países que a puxaram para baixo (-6%). Chama a atenção ainda o fato de que, a despeito do câmbio e da desaceleração da economia europeia, os volumes de/para a Holanda (principal Gateway do mercado europeu) cresceram de maneira consistente.


Em uma análise um pouco mais detalhada, selecionando os 25 maiores crescimentos absolutos de volume por Parceiro Comercial e Commodity, fica bastante evidente que os Grãos e Cereais foram o grande destaque deste 1º semestre 2016 e, definitivamente, puxaram a média para cima. Esse grupo de commodity ocupou nada menos do que 13 das 25 posições do ranking abaixo e vale notar que, em termos proporcionais, o crescimento de volume para a China demonstrou a menor taxa de crescimento, o que sugere que o crescimento das exportações de Grãos e Cereais tem ocorrido de forma geograficamente mais ampla e fragmentada e pode, quem sabe até, transformar-se em uma oportunidade para o crescimento da containerização desse tipo de carga para destinos para os quais a demanda seja insuficiente para encher os porões de um navio graneleiro.

Além dos Grãos e Cereais também chamaram a atenção:

• o crescimento de 37% dos embarques de Papel e Celulose para a China num momento que os principais produtores nacionais estão inaugurando, anunciando ou construindo novas fábricas;

• o crescimento de 158% dos embarques de Carnes e Miudezas para a China (reflexo direto da abertura desse mercado à carne brasileira), principalmente, num momento no qual os EUA também acabaram de abrir mercado à nossa carne. No caso dos EUA acredita-se que, mais do que o incremento de embarque para aquele país, o impacto indireto pode ser ainda maior já que outros mercados que se guiam pelas barreiras sanitárias do EUA tendem a se abrir para nossas carnes;

• o crescimento das importações de Fertilizantes do Canadá e da Arábia Saudita, demonstradas na tabela I, explicam a queda nas importações da Rússia, demonstrada na tabela II. A Rússia continua sendo o principal fornecedor brasileiro de Fertilizantes, mas viu sua participação de mercado cair de 23% para 15%.


Mais uma vez, as análises demonstram a pujança do agronegócio brasileiro, que continua de vento em popa e consolidando, em várias culturas, sua posição de liderança no mercado internacional. É evidente que o câmbio contribuiu com o agronegócio no 1º semestre 2016, contudo, isso definitivamente não pode ofuscar a profunda transformação pela qual o nosso agronegócio vem passando, fruto de pesados investimentos em pesquisa, tecnologia, treinamento, profissionalização e conversão de pastagens degradadas.

Somando-se ao câmbio e aos investimentos todos os diferenciais competitivos que o agronegócio brasileiro já possui (disponibilidade de terras, recursos hídricos, regime de chuvas, temperatura etc) e as perspectivas de crescimento da demanda internacional, acredito que o setor merece, cada dia mais, um olhar mais atento por parte das autoridades e dos investidores, além do reconhecimento e orgulho de todos os brasileiros.

Escrito por:

Leandro Barreto

Administrador de empresas, especializado em economia internacional pela Universidade de Grenoble e em Inteligência Competitiva pela FEA/USP. Há mais de dez anos atuando no segmento, foi gerente de Inteligência de Mercado na Hamburg-Süd, professor pelo IBRAMERC e Diretor de Análises da Datamar Consulting. Atualmente, coordena projetos independentes de consultoria com forte atuação junto a armadores, autoridades portuárias, embarcadores e entidades públicas voltadas para o desenvolvimento do setor portuário.



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