Onde está o dinheiro?

Sim, as expectativas talvez fossem altas demais. Mas o que falta para chegarem os investimentos em infraestrutura?

Há alguns meses, desde que a ex-presidente Dilma foi afastada e que o então presidente interino Michel Temer assumiu o governo com um discurso mais liberal, temos acompanhado uma mudança de humor do mercado, e até um certo otimismo moderado por parte dos empresários e da população.

Venho ouvindo, ao longo dos últimos meses, de alguns fundos de investimentos – e até cheguei a escrever aqui nessa coluna – que existe uma verdadeira "avalanche de dinheiro" a caminho do Brasil, e que os investidores estariam apenas aguardando a confirmação do impeachment para "entrarem em campo".

Pois bem. Quase dois meses após Michel Temer deixar para trás o status de interino e ter aprofundado ainda mais o discurso "pró-mercado", pouco se viu de teoria e discurso se tornando realidade, seja por parte do governo seja por parte dos investidores.

A verdade é que, embora vejamos o governo colocar alguns processos em andamento, a burocracia continua "emperrando" obras cujos benefícios parecem óbvios (vide as 25 concessões do "Projeto Crescer" anunciadas pelo presidente Temer em 13 de setembro, mas com previsão de ir a leilão entre 2017 e 2018!!!).

A ordem do novo governo é somente licitar obras que tenham projetos robustos, prévio licenciamento ambiental, aval do TCU, e após terem passado por debate público. Confesso que, apesar do aparente senso de urgência do governo, e de as novas diretrizes fazerem sentido, a história recente nos ensina o quanto pode demorar no Brasil um licenciamento ambiental ou um aval do TCU.

Já por parte dos investidores, o que ouvi recentemente foi que, apesar das recentes vitórias do governo no congresso, o cenário político ainda continua bastante vulnerável e, portanto, é necessário aguardar mais alguns "sinais" até que se sintam seguros em trazer seus recursos para cá, tais como:

• a aprovação da PEC 241 que limita os gastos púbicos (expectativa é que seja totalmente aprovada na Câmara e no Senado ainda neste ano);

• o montante de recursos no exterior não declarados à Receita Federal, a serem repatriados mediante pagamento de multa (o prazo termina no próximo dia 31 de outubro);

• a reforma da previdência (ainda em negociação).

De acordo com os profissionais com quem conversei, o mercado entende que esses três itens são os pilares que sustentarão a retomada da confiança no Brasil, já que podem "blindar" a economia do país contra os eventuais efeitos de um aprofundamento da crise política gerado pelo avanço da Lava-Jato sobre caciques PMDB e contra as ameaças veladas e a possibilidade de delação do ex-deputado Eduardo Cunha.

A despeito da política e de muitos políticos corruptos/incompetentes, uma série de fundamentos da nossa economia permanecem sólidos: continuamos entre as 10 maiores economias do mundo; temos um mercado consumidor de mais de 200 milhões de habitantes; nossa relação Dívida X PIB ainda é aceitável; temos uma reserva internacional considerável; a inflação foi domada; o câmbio está flutuando e, principalmente, em função da nossa abundância de recursos naturais, estamos nos consolidando como um grande líder mundial nas exportações do setor agropecuário.

O mundo precisa cada dia mais das nossas commodities e nós, cada dia mais, precisamos adequar nossa infraestrutura para levar nossas commodities para o mundo. Que venham os investimentos!

Escrito por:

Leandro Barreto

Administrador de empresas, especializado em economia internacional pela Universidade de Grenoble e em Inteligência Competitiva pela FEA/USP. Há mais de dez anos atuando no segmento, foi gerente de Inteligência de Mercado na Hamburg-Süd, professor pelo IBRAMERC e Diretor de Análises da Datamar Consulting. Atualmente, coordena projetos independentes de consultoria com forte atuação junto a armadores, autoridades portuárias, embarcadores e entidades públicas voltadas para o desenvolvimento do setor portuário.



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