A aquisição que abalou o mercado

O sentimento é unânime, e os tempos indicam que a palavra de ordem é ganho de escala

Desde a última quinta-feira, data da confirmação dos rumores das negociações entre Maersk e Hamburg-Süd, venho conversando com colegas de muitos setores da comunidade de Transporte & Logística, e posso dizer que, nos últimos 15 anos, não vi nenhuma outra fusão, aquisição ou falência abater tão fortemente os profissionais desse setor quanto a aquisição da Hamburg-Süd pela Maersk. O sentimento geral parece ser um misto de tristeza e certa perplexidade, por tudo que a centenária Hamburg-Süd - que tem como slogan "tradicionalmente moderna" - sempre representou para transporte marítimo, notadamente Brasil e na Argentina.

É bem verdade que não se pode dizer que a aquisição da Hamburg-Süd pela Maersk tenha sido exatamente uma surpresa. Ao longo dos últimos anos, muitos rumores surgiram e os sinais, outrora “fracos", foram se intensificando, como por exemplo, o anúncio da Maersk no final de 2015, de que a meta era se tornar líder na América Latina nos próximos anos; a parceria frustrada da Hamburg-Süd com a UASC; o anúncio das diretrizes da Maersk Transport; a recente decisão da família Oetker de que Richard Oetker continuaria presidindo o grupo - exceto a divisão de navegação - mesmo após completar 65 anos (quem trabalhou lá sabe o tamanho do paradigma que isso representa); e uma série de outras indicações.

A sensação que tenho é de que, ao ver sucumbir a maior e mais admirada empresa do transporte marítimo da nossa costa, começou a “cair a ficha" de que essa aquisição marca o início de uma era na qual empresas médias e de nicho não mais conseguirão sobreviver em um setor onde a palavra de ordem é ganho de escala!

Contudo, ainda que o produto dessa negociação crie um líder isolado no transporte marítimo brasileiro/argentino, e que uma aquisição desse porte vise buscar sinergias – e ganhos de escala –, ao realizarmos uma análise fria dos possíveis impactos para os exportadores e importadores da costa leste da América do Sul, percebemos:

• Serviços de/para Europa/Mediterrâneo: não deve haver muitas mudanças, já que Hamburg-Süd e Maersk já são parceiros, e operam nos mesmos navios;

• Serviços de/para Costa Leste e Golfo dos EUA: também não devem mudar muita coisa já que, anos atrás, a Maersk havia deixado de operar com navios próprios nessas rotas;

• Serviços de/para Costa Oeste da América do Sul: também não deve haver grandes mudanças, já que a Maersk nunca participou desse mercado em função dos acordos bilaterais existentes entre Brasil e Chile;

• Serviços de/para e Ásia: Maersk e Hamburg-Süd operam em serviços diferentes e, portanto, alguma sinergia e/ou ganho de escala poderá ser encontrada;

• Serviços de Cabotagem: esses ainda são uma dúvida, já que as empresas Aliança e Mercosul Line, empresas brasileiras subsidiárias respectivamente de Hamburg-Süd e Maersk, possuem, juntas, praticamente 80% da capacidade instalada da Cabotagem brasileira, podendo, portanto, ser questionadas pelos órgãos competentes. Além disso, operam em serviços distintos, sendo a Mercosul Line atualmente parceira da LogIn - terceira e última empresa desse setor – o que faz com que mudanças nesse setor possam ocorrer.

Em outras palavras, ainda que, no longo curso, os volumes de Hamburg-Süd e Maersk, somados, representem cerca de 1/3 do comércio exterior brasileiro em containers, na prática, os clientes brasileiros/argentinos não devem sentir grandes mudanças no curto ou médio prazo. Já na cabotagem, mesmo que, juntos Aliança e Mercosul Line operem cerca de 2/3 da capacidade instalada desse modal, há que se lembrar que a participação da cabotagem na matriz de transportes do Brasil ainda é pequena e, portanto, será que uma solução para entender a real concentração desse mercado não poderia ser incluir o transporte rodoviário nesse cálculo?

Em seu comunicado ao mercado, além de dizer que a marca Hambug-Süd será mantida, penso que o CEO da Maersk, Soren Skou, foi bastante feliz ao enaltecer a excelência operacional, a dedicação dos funcionários, a lealdade dos clientes e o respeito conquistado pela marca Hamburg-Süd e, portanto, eu não poderia encerrar esse texto sem antes expressar meu mais profundo respeito, carinho e gratidão pelos longos anos em que tive a oportunidade e a honra de trabalhar para essa grande empresa que é a Hamburg-Süd.

Sem dúvida alguma, a Hamburg-Süd foi minha grande escola, foi o lugar onde encontrei grandes mestres e onde fiz muitos amigos, além, claro de ter sido lá que fui "picado" por esse bichinho da navegação que faz com que as pessoas se tornem verdadeiros apaixonados pelo setor. Apesar de também sentir certa tristeza e me solidarizar com os colegas que ainda mantenho na Hamburg-Süd, penso que, diante da crise e das grandes transformações pela qual o setor de transporte marítimo está passando, juntar-se à Maersk foi mesmo a melhor das opções.

Escrito por:

Leandro Barreto

Administrador de empresas, especializado em economia internacional pela Universidade de Grenoble e em Inteligência Competitiva pela FEA/USP. Há mais de dez anos atuando no segmento, foi gerente de Inteligência de Mercado na Hamburg-Süd, professor pelo IBRAMERC e Diretor de Análises da Datamar Consulting. Atualmente, coordena projetos independentes de consultoria com forte atuação junto a armadores, autoridades portuárias, embarcadores e entidades públicas voltadas para o desenvolvimento do setor portuário.



4 Comentários

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    Lisandro Vieira

    06/12/2016 18:55

    Excelente Post, obrigado!

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    Carsten Gelhaus

    06/12/2016 12:43

    Parabéns pelo texto. Concordo totalmente . E posso compartilhar o mesmo mix de sentimentos, já que passei quase metade da minha vda nessa empresa.
    Boa sorte aos funcionários competentes e compremetidos!

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    Alvaro

    06/12/2016 10:26

    Leandro, o que você quis dizer em "incluir o transporte rodoviário nesse cálculo ?

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    Cleci Leão

    15/12/2016 20:16

    Olá Álvaro, vou pedir ao Leandro que envie a resposta em breve, ok? Obrigada pelo comentário!