A desaceleração Chinesa e o Brasil

Nesta semana, Barreto analisa as mudanças da economia chinesa e avalia que o Brasil pode vislumbrar oportunidades na nova etapa

A "desaceleração" da economia chinesa é um termo que vem se tornando bastante frequente no noticiário nacional e internacional, especialmente utilizado como justificativa ao enfraquecimento da economia de vários países – e da queda cotação das commodities, ou seja: a maioria desse tipo de análise está relacionada ao valor das transações.

Considerando que a demanda por portos e navios está mais diretamente relacionada com o volume do que com o valor movimentado – e, como nosso objetivo nessa coluna é sempre analisar as informações sob a ótica do transporte marítimo e movimentação portuária no Brasil –, sugiro focarmos aqui nos dados da Secex/MDIC (Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio) referentes às exportações brasileiras em toneladas para a China nos últimos 5 anos.

Conforme ilustrado no gráfico abaixo, as exportações do Brasil para a China tiveram um crescimento consistente do volume nos últimos 5 anos – uma média de 6% ao ano –, muito embora seja verdade que, em termos de valor, a receita em dólar venha caindo desde 2013 (início da queda da cotação das commodities) e esteja se aproximando dos níveis de 2010.


A análise se torna ainda mais interessante quando detalhamos o crescimento do volume de 2015 por grupo de commodity – utilizando a classificação das mercadorias conforme os 2 primeiros dígitos do SH2 (Sistema Harmonizado). Para minha surpresa inclusive, apesar da notória perda de rentabilidade, queda nas ações e/ou dificuldade financeira das mineradoras brasileiras, de acordo com os dados da Secex, o volume de "Minérios, escórias e cinzas" (SH2 26) exportados pelo Brasil para a China em 2015 cresceu 4%. E esse é um dado relevante já que, sozinhos, "Minérios, escórias e cinzas" responderam por 75% do volume que exportamos aos chineses.




O volume geral exportado pelo Brasil à China cresceu 10% em 2015, levando-nos à conclusão de que merecem destaque os expressivos crescimentos nos embarques de:

  • Sementes e frutos oleaginosos; grãos: segunda do ranking, em 2015, esse grupo de commodities representou 16% do volume “Brasil >> China”, mas seus significativos 25% de crescimento ajudaram a puxar a média para cima. A perspectiva é de que o Brasil continue aumentando consideravelmente esse volume nos próximos anos;
  • Combustíveis minerais; óleos minerais: terceiro do ranking, em 2015 esse grupo de commodities representou 5% do volume “Brasil >> China”, porém com uma taxa de crescimento expressiva, de 136%. Em abril de 2015, a Petrobras captou US$ 3,5 bi junto ao Banco de Desenvolvimento da China, e acertou parte pagamento em petróleo (mesmo padrão do acordo firmado em 2009 com a instituição financeira: fornecimento de 150/200 mil barris por dia pelos próximos dez anos à Petroleira Chinesa Sinopec);
  • Pastas de madeira: quarta do ranking, em 2015, esse grupo de commodities representou 2% do volume “Brasil >> China”, com sua taxa de crescimento de 15%. O grupo dobrou de tamanho nos últimos 5 anos e, com as novas fábricas startup de celulose que estão por vir (ex.: Klabin, Fibria e Eldorado), a tendência é de que essa commodity continue crescendo muito acima da média nos próximos anos;
  • Açúcares: quinta do ranking, esta commodity representou 1% do volume “Brasil >> China” em 2015, e cresceu conforme a média (10%), tendo também dobrado de tamanho nos últimos 5 anos;
  • Carnes e miudezas: oitavo do ranking, em 2015, este grupo de commodities representou 0,2% do volume “Brasil >> China”, porém os seus 79% de taxa de crescimento contribuíram para puxar a média para cima. A expectativa é de que, com o encerramento do embargo chinês à carne bovina brasileira, os volumes, que triplicaram em 3 anos nos últimos cinco anos, continuem a crescer de forma acelerada;


Em outras palavras, não é correto afirmar que, em 2015, o volume das exportações brasileiras para a China tenha sido impactado pela desaceleração do ritmo de crescimento do PIB daquele país e, tampouco, que essa seja a perspectiva para os próximos anos. Pelo contrário: ainda que o acesso às informações chinesas não seja o ideal, aparentemente o plano é mudar a matriz de crescimento, que, por muitos anos, foi puxada pelos investimentos em infraestrutura, para o aumento do consumo da população. O cenário pode ser excelente para o Brasil (exceto para a mineradoras, claro). Ou seja: continuamos precisando muito investir em portos capazes de escoar competitivamente grãos, celulose, açúcar e contêineres.

Escrito por:

Leandro Barreto

Administrador de empresas, especializado em economia internacional pela Universidade de Grenoble e em Inteligência Competitiva pela FEA/USP. Há mais de dez anos atuando no segmento, foi gerente de Inteligência de Mercado na Hamburg-Süd, professor pelo IBRAMERC e Diretor de Análises da Datamar Consulting. Atualmente, coordena projetos independentes de consultoria com forte atuação junto a armadores, autoridades portuárias, embarcadores e entidades públicas voltadas para o desenvolvimento do setor portuário.



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