Decifrando os dados da Secex - Parte II

Os portos mais "dependentes" das commodities minerais e agrícolas demonstraram as maiores oscilações de volume em 2016

Seguindo a análise dos dados do Comércio Exterior Brasileiro em 2016 recém-publicados pela Secex/Aliceweb, é possível notar que o modal marítimo continua sendo disparado o grande responsável pelo transporte das nossas importações/exportações, seja em volume (95%) ou em valor (76%). Portanto, vem sofrendo, mas também exercendo, grande influência sobre a atual situação dos portos brasileiros.

Os dados demonstram que os TOP 7 complexos portuários brasileiros concentraram 84% do nosso Comércio Exterior em volume em 2016 e que, apesar do saldo do volume movimentado nos portos brasileiros ter ficado praticamente estável no comparativo de 2015 x 2016, houveram grandes oscilações, tanto positivas quanto negativas na performance desses sete maiores portos dada sua maior exposição às commodities minerais, agrícolas e combustíveis.

Conforme podemos observar na tabela seguinte (que destaca as três maiores commodities movimentadas nos sete principais portos brasileiros), enquanto os portos de Vitória-ES e Rio Grande-RS reportaram queda no volume movimentado em 2016, os demais portos reportaram crescimento.

Em Vitória-ES a queda de volume (-19%) está intimamente ligada tanto a interdição dos embarques de minério imposta pelas autoridades no início de 2016 em razão da poluição do ar e da água durante a operação dessa commodity quanto ao desastre ocorrido em Mariana-MG que afetou a produção da mineradora Samarco. Já em Rio Grande-RS a queda de volume foi reflexo da quebra da safra de grãos (-20%).

Contudo, as quedas de volumes descritas acima foram compensadas pelo crescimento de volume nos demais portos, notadamente:

• Itaqui (+12%) e Sepetiba (+4%) puxados pelo minério;

• Santos (+5%) e Paranaguá (+6%) puxados pelo açúcar;

• Barcarena (+8%) puxado pelos químicos e grãos (numa demonstração de que o famoso "Arco Norte" já começa a ser uma opção competitiva para o embarque de grãos mesmo em ano de "quebra de safra").


Por outro lado, o gráfico abaixo demonstra que, apesar dos volumes terem ficado estáveis em 2016, houve um sólido e acentuado crescimento nos principais portos brasileiros ao longo dos últimos 16 anos, tendo alguns desses inclusive passado ilesos, em termos de volume, à crise internacional de 2008/2009. Vale mencionar ainda que, os problemas mencionados anteriormente fizeram com que Vitória-ES perdesse para Itaqui-MA sua histórica liderança na movimentação de cargas no Brasil.

O crescimento anual médio do volume movimentado nos portos brasileiros nos últimos 16 anos foi de respeitáveis 5% a.a. (muito acima do crescimento médio do PIB no mesmo período), conforme demonstrado na tabela seguinte. Vale destacar que entre os TOP 7 portos brasileiros apenas Vitória-ES cresceu abaixo da média (boa parte disso em razão da performance ruim registrada em 2016).

Em outras palavras, conforme já mencionei em outros artigos, penso que apesar de todos nossos problemas político-econômicos, o comércio exterior brasileiro continua crescendo e proporcionando oportunidades aqueles que estão mais atentos aos dados do que ao pessimismo muitas vezes exagerado das redes sociais e de muitas manchetes de jornais.

Escrito por:

Leandro Barreto

Administrador de empresas, especializado em economia internacional pela Universidade de Grenoble e em Inteligência Competitiva pela FEA/USP. Há mais de dez anos atuando no segmento, foi gerente de Inteligência de Mercado na Hamburg-Süd, professor pelo IBRAMERC e Diretor de Análises da Datamar Consulting. Atualmente, coordena projetos independentes de consultoria com forte atuação junto a armadores, autoridades portuárias, embarcadores e entidades públicas voltadas para o desenvolvimento do setor portuário.



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