Infraestrutura em foco

Arestas precisam ser aparadas na relação entre os setores público e privado

Na última quinta-feira - 08/12/16 - aconteceu na sede da XP Investimentos em São Paulo um evento setorial para tratar da Infraestrutura no Brasil e trouxe para o debate representantes das esferas pública e privada. Dentre os palestrantes, pelo setor privado, estavam entre outros os Presidentes da Santos Brasil, Rumo, Arteris e EDLP (Contrail & Ferrogrão), enquanto que em nome do setor público falaram executivos do PPI, ANTT, TCU, Ministério dos Transportes e Ministério Público.

O alto nível dos debates já é reconhecido pelos participantes dos eventos organizados pela XP Connections que, nesse dia, focou basicamente em fazer um contraste entre as oportunidades de investimentos por modal que existem no Brasil versus os fatores que ainda atrasam - ou inviabilizam - esses projetos (ex.: Financiamento, Licenciamento, Regulamentações, Segurança Jurídica etc). A série de debates demonstrou claramente - ao menos para mim - que ainda existem muitas arestas a serem aparadas na relação entre os setores público e privado antes que haja uma convergência em prol do país.

Tanto o setor público quanto o privado defendem suas "bandeiras" com muita propriedade e coerência. Um exemplo é a importância das renovações antecipadas das concessões para a viabilização de novos investimentos, defendida pelo setor privado diante da nova realidade do mercado. Em contrapartida, o Ministério Público defende que se o contrato de concessão prevê 25 anos, o arrendatário não deveria poder começar a solicitar renovação antecipada após cumprir a metade do prazo e, principalmente, antes mesmo de cumprir as exigências do contrato original.

Outro debate interessante se deu a cerca da reclamação por parte dos empresários quanto a morosidade e a burocracia no processo de autorização/licenciamento de projetos de infraestrutura, além da falta de um modelo de planejamento logístico para o país que sobreviva às mudanças de governo. Enquanto isso, representantes do setor público questionavam a qualidade dos projetos recebidos. Inclusive, o gestor de uma estatal do setor de saneamento que estava ao meu lado confidenciou que é obrigado a rejeitar a maior parte dos projetos que recebe por erros muitas vezes básicos e que "a única empresa que sabe preparar projetos no Brasil é a Odebrecht"!

No entanto, o mais interessante foi, em meio a toda essa contenda, sermos lembrados pelo espanhol David Díaz, Presidente da Arteris, dos "atrativos" do Brasil aos olhos do investidor estrangeiro: PIB de R$ 6 trilhões, oitava economia do mundo, mercado consumidor de 205 milhões de habitantes, além de "um déficit de infraestrutura gigantesco". Segundo Díaz, quando comparado a outros países do mundo, não é a regulamentação exagerada o que afugenta o investidor estrangeiro, mas sim o déficit fiscal, a baixa produtividade e a falta de previsibilidade.

Já ao final do evento, a economista chefe da XP Investimento - Zeina Latif, explicou de maneira bastante didática o aumento recorrente do déficit de infraestrutura no Brasil: "o investimento atual em infraestrutura no Brasil é da ordem de 2% do PIB ao ano contra uma depreciação média de 3% ao ano". A economista reforçou ainda a importância do ajuste fiscal e da reforma previdência para que o país volte a atrair investidores.

Ao fim do dia fiquei pensando: Será que em meio a demora na reação da economia, a queda do ministro Gedel, a delação da Odebrecht, ao processo de cassação do TSE, ao desgaste envolvendo o STF/Senado, a baixa popularidade e as primeiras manifestações populares, o atual Governo ainda terá o tão fisiológico apoio político necessário para ministrar esses "remédios amargos" e, com isso, destravar esses investimentos? Quem viver verá!

Escrito por:

Leandro Barreto

Administrador de empresas, especializado em economia internacional pela Universidade de Grenoble e em Inteligência Competitiva pela FEA/USP. Há mais de dez anos atuando no segmento, foi gerente de Inteligência de Mercado na Hamburg-Süd, professor pelo IBRAMERC e Diretor de Análises da Datamar Consulting. Atualmente, coordena projetos independentes de consultoria com forte atuação junto a armadores, autoridades portuárias, embarcadores e entidades públicas voltadas para o desenvolvimento do setor portuário.



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