Uber, Booking, Tinder e o Transporte Marítimo

A Revolução 4.0 trata basicamente de aproximações: usuário e prestador, fornecedor e cliente, pretendente e candidato

Tenho a impressão de que, nestes últimos anos, muitos de nós brasileiros temos estado tão envolvidos com as crises política e econômica que tanto têm influenciado nosso dia a dia, seja por meio do desemprego, da desesperança e revolta com a maioria dos nossos políticos ou pela dificuldade em encontrar uma luz no fim do túnel, que temos deixado passar, de alguma maneira, desapercebido o tamanho da revolução pela qual muitos setores da economia estão passando mundo afora.


Na condição de um apaixonado por bases de dados, ferramentas de BI, estatísticas e análises, tenho acompanhado com grande entusiasmo as novidades proporcionadas pelos avanços da tecnologia e, inclusive, escrevi recentemente por aqui um artigo sobre "Big Data e o Shipping" (Leia no Guia). De forma resumida, esse artigo demonstrava áreas da navegação que já estão sendo preparadas para a utilização intensiva do Big Data, tais como: manutenções e reparos (mais rápidos, assertivos e baratos), navios não tripulados, manobras para atracação sem a necessidade de práticos a bordo. Além disso, o artigo faz uma reflexão sobre como armadores, terminais portuários, NVOCCs e Freight Forwarders poderiam utilizar essas tecnologias para calibrar melhor suas previsões de demanda e dimensionamento de mercado.

Tenho que admitir, todavia, que foi somente no mês passado - durante a TOC Americas | Cancun - que comecei a me dar conta da real dimensão das transformações pela qual nosso setor vai passar. Foram ao menos 3 painéis com experientes debatedores demonstrando como a tecnologia pode – e irá – revolucionar o transporte internacional de mercadorias.

A Maersk, por exemplo, investiu ao longo dos últimos anos algumas centenas de milhares de dólares para instalar sensores, chips 3G e transmissores GPS em toda sua frota de 270.000 containers refrigerados, visando proporcionar maior transparência aos seus clientes, melhorar a gestão dos produtos/serviços e, principalmente, redução de custos (ex.: Claims e Seguros). Fontes internas garantem que, apesar das tendências de redução de custos, o departamento da Maersk para análise de dados provenientes desses sensores deve dobrar de tamanho nos próximos meses, com foco em entender cada vez mais as necessidades e especificidades das cargas refrigeradas, em busca de "abrir novos mercados". Nesse sentido, servem de exemplo a containerização das Bananas e Abacaxis exportados por países da América Central e Equador para EUA e Europa). Essa estratégia, inclusive, vem ao encontro das novas diretrizes da empresa, ao anunciar a criação do Maersk Transport: integrar as unidades de transporte e logística do grupo de modo a introduzir novos produtos, soluções personalizadas e serviços digitais, por meio de um processo de integração/digitalização da cadeia de transporte internacional de carga.

Outros debates ainda mais acalorados colocaram em xeque o futuro dos NVOCCs e Freight Forwarders nesse novo contexto, fazendo uma analogia bastante didática entre o antigo papel das agências de viagens versus os atuais sites de viagens como booking.com ou, ainda, o papel das agências matrimonias (e dos bares de paquera) versus o Tinder. Ou seja: a tecnologia está conectando cada dia mais diretamente os "usuários" dos "fornecedores", minimizando a importância dos "intermediários".

Um case bastante emblemático do uso de tecnologia no setor de transporte de cargas aconteceu no último dia 20 de outubro, quando um caminhão autônomo - sem motorista - carregado de cerveja percorreu 190 km por uma Rodovia Interestadual dos EUA, entre Fort Collins e Colorado Springs. Segundo a Uber Technologies e a AB Inbev, respectivamente "fornecedor" e "usuário", foi a primeira vez que uma carreta autônoma foi usada no transporte comercial e, mesmo mantendo dentro da cabine um motorista para caso de emergência, os resultados dessa simulação relevam que o usuário poderia economizar US$ 50mi/ano em custos com combustíveis e com um cronograma de entregas mais frequentes (Caminhão sem motorista do Uber entrega Budweiser nos EUA).

Desde a TOC Americas, estou cada dia mais convencido de que, ainda que o setor de transporte internacional de carga esteja nitidamente atrasado em relação a muitos outros setores no que se refere a maximização do uso da tecnologia – possivelmente em razão das ainda baixas taxas de compartilhamento de dados entre os diversos players da cadeia logística –, existem fortes indícios de que se trata de um processo inevitável e irreversível e que, como em toda mudança, atingirá as empresas e profissionais do setor que não estiverem preparados. Mas, por outro lado, certamente também trará novas oportunidades. Como diz Tim Berners-Lee, cientista britânico, criador do www: “A web não está concluída, é apenas a ponta do iceberg. As novas mudanças irão balançar o mundo ainda mais”.

Escrito por:

Leandro Barreto

Administrador de empresas, especializado em economia internacional pela Universidade de Grenoble e em Inteligência Competitiva pela FEA/USP. Há mais de dez anos atuando no segmento, foi gerente de Inteligência de Mercado na Hamburg-Süd, professor pelo IBRAMERC e Diretor de Análises da Datamar Consulting. Atualmente, coordena projetos independentes de consultoria com forte atuação junto a armadores, autoridades portuárias, embarcadores e entidades públicas voltadas para o desenvolvimento do setor portuário.



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