30/03/2012

Falta de planejamento a longo prazo prejudica a infraestrutura do País

Para especialista, o Brasil perdeu o melhor momento do comércio mundial.Leia Mais

Juliana Borba

João Guilherme Araújo, diretor de Desenvolvimento de Negócios do Ilos (Instituto de Logísticas e Supply Chain), pode falar com propriedade sobre as questões logísticas do País. Formado em Engenharia Química pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), com MBA em Marketing pelo Ibmec/SP e MBA Executivo na BSP (Business School SP), com Programa de Extensão da Rotman School of Magament de Toronto, no Canadá, o executivo conquistou uma visão detalhada sobre diversos setores da indústria nos quais atuou durante 15 anos de experiência profissional, tais como Varejo, Bens de Consumo, Energia e Operação Logística.
Araújo, que já passou em empresas bem conceituadas como Ceva Logistics, Whirlpool ALL (América Latina Logística) e GPA-Grupo Pão de Açúcar, concedeu uma entrevista exclusiva à revista Guia Marítimo na qual falou, especialmente, sobre os gargalos da logística brasileira e as possíveis soluções para que o Brasil possa se valer de um momento privilegiado: o de estar no centro das atenções dos investidores.
Ele explica que para entender a supply chain como um todo no País é preciso analisar as variáveis que a compõem de forma a estabelecer um equilíbrio entre os pontos positivos galgados pelo Brasil e os pontos negativos nos quais temos registrado um desempenho desfavorável. E mais, ele atribui parte do atraso na melhoria da infraestrutura de transporte exatamente a uma característica da cultura brasileira: a deficiência no planejamento a longo prazo. “Temos recebido investimentos nos últimos anos, mas perdemos o melhor momento de comércio mundial, que foram os últimos dez anos”, ressalta.

Guia Marítimo – Quais são os problemas do Brasil no setor logístico hoje?

João Guilherme Araújo – Dividimos a situação do Brasil em duas partes. A primeira é a área de gestão, de práticas de negócios, de profissionais e de tecnologia aplicada. Nessa área estamos absolutamente atualizados e up to date. É uma área que, nos últimos 15 anos, se revolucionou aqui no País. Depois de 1994, a Logística veio, definitivamente, para a agenda das empresas sob a ótica de prática de negócio porque com a moeda estabilizada, o jogo começa a ser realmente de eficiência e produtividade nos processos e nas movimentações. Nisso estamos bem, talvez até porque na outra parte, no lado da infraestrutura, estamos atrasados.
Comparando o Brasil com outros países, estamos bem para trás em termos de infraestrutura. Temos recebido investimentos nos últimos anos, mas perdemos o melhor momento de comércio mundial, que foram os últimos dez anos, quando o comércio internacional cresceu absurdamente por conta de avanços de comunicação e quebra de barreiras tarifárias e de comércio. Com a crise de hoje, voltamos a ver algumas barreiras tarifárias e algum grau de protecionismo, portanto nos próximos anos a velocidade de crescimento desse comércio já não será a mesma, embora seja inexorável que ele cresça.
Nesse período, crescemos nossa capacidade e nossos volumes, mas ainda foi abaixo da média. Infraestrutura é uma área muito dura porque ela se concolida em duas grandes vertentes: é preciso investir em disponibilidade e também em conservação. Então, quem já tem uma boa infraestrutura, basta conservar. Quem não tem – e esse era o nosso caso – precisa do dobro, do triplo de investimento. Nosso caso não é apenas um caso de melhorar, fazer uma reforma ou duplicar, é um caso de construir coisas novas. Isso impactou o País e nos deixou numa situação de competitividade inferior a outros players.

GM – Impactou, mas não foi o único fator, certo?
JGA – Não, absolutamente. Na verdade o grande fator foi o fator de investimento. O Brasil vem parado em investimento há muitos anos. Tirando juízo de valor sobre política e regime, o último momento em que o Brasil investiu em infraestrutura foi no governo militar e aí tem um pouco a ver com a cultura deles, já que o militar é o cara que faz planejamentos de longo prazo. Naquela época, o País investia uma ordem de 2% a 3% do nosso PIB em infraestrutura – foi quando fizeram as ultimas grandes rodovias, os últimos grandes investimentos. Depois passamos por um período de quase nenhum investimento, algo de 0,2% ou 0,4% do nosso PIB. Recentemente, isso, com o PAC, tá subindo para 0,3%, 0,4% do PIB. Ou seja, continua sendo bastante inexpressivo ou pequeno frente ao que é necessário. O que temos é uma situação de pouca oferta de infraestrutura e um grande gap porque não há nem disponibilidade nem conservação. Em termos de rodovias, por exemplo, 20% a 25% da nossa malha é pavimentada, o resto não é pavimentado. É bem pouco. Ferrovia é a mesma coisa. Portos, a mesma coisa. Hidrovia nem se fala, já que temos potencial natural para ser explorado e ele não é.

GM – Tínhamos como prever que precisaríamos de todos esses investimentos para acompanhar o crescimento do Brasil e chegar ao ponto que o País chegou hoje sem grandes problemas nessa área?
JGA – Isso é difícil de dizer. Há um desequlíbrio entre a quantidade de investimentos em transporte e a necessidade de infraestrutura. O maior investimento é o rodoviário por conta da nossa matriz de movimentação ser fundamentalmente rodoviária, mas, para chegarmos ao ponto que precisamos, teríamos que investir 15 ou 16 vezes mais o que será investido pelo PAC. No que diz respeito aos portos, precisaríamos de 12 vezes mais investimentos do que está previsto. Ainda que tívessemos o dinheiro, teríamos que nos preocupar também com a qualidade do investimento, porque não adianta colocar tudo em uma só frente.

GM – Qual será o cenário do Brasil nos próximos anos por conta da crise? Agora é a hora de, mesmo com os gargalos, ir atrás de novos mercados? Quais mercados o Brasil poderia conquistar?
JGA – Eu acho que o Brasil está no centro da agenda de investimento. E acho que vai continuar sendo assim, parte por competência do País, de ter um mercado doméstico enorme e que está distribuindo renda, além da estabilidade da nossa moeda, e parte por falta de opção. A China, que é um lugar supercompetitivo, tem um governo ditatorial, então se você não fizer uma parceria lá, você não entra – e mesmo fazendo parceria ainda é complicado. Na Índia existem mais de 50 castas, o que é um negócio ingovernável, muito embora seja um país bem avançado em termos de educação e também muito competitiva em várias frentes, especialmente em tecnologia da informação. E a Rússia, enquanto não resolver o governo, também fica complicadíssimo. Falei dos Brics que são os mais famosos, mas também se você olhar para a Europa, o continente está numa situação complicada porque tem uma união monetária, mas não tem uma união fiscal, e não tem como governar só uma dessas variáveis. Para não falar da união social que, obviamente, não existe.
A um curtíssimo prazo, teremos um pequeno freio. Mas as boas notícias vêm tanto dos Estados Unidos, que está sempre se reinventando e continuará sendo a locomotiva do mundo, e da China, pela manutenção do nível dela – se ela cresce, indiretamente isso nos favorece porque somos dependentes dela. O Brasil é um excelente lugar para investimentos, mas a resposta para por quanto tempo continuará sendo está associada às questões de reformas (fiscal, política e previdenciária), de redução do custo da máquina para liberar o dinheiro que deveria ir para investimentos e o lado regulatório que é invés de nos fecharmos, nos abrirmos. Ou se estimula a competitividade nacional ou se diminui a competitividade internacional, e essa segunda é um caminho artificial e as experiências passadas já mostraram que mercado protegido é mercado ineficiente. Temos que criar condições para que o investidor remunere o investimento feito.

Comentários encerrados.