CEVA aposta em inovação para driblar gargalos logísticos do Brasil

O Guia Marítimo, idealizador da Intermodal South America, como de hábito, promoveu nova rodada de entrevistas com líderes do setor. O objetivo é avaliar o humor do mercado em relação aos problemas geopolíticos, sobrecarga da infraestrutura, em risco de colapso, metas ESG, inovação e medidas para mitigar crescentes riscos na segurança das cargas. E, como não poderia deixar de ser, pesquisa quanto aos resultados da empresa na Intermodal para aqueles que participaram.


Gustavo Santi, VP de Desenvolvimento de Negócios LATAM da CEVA Logistics, em entrevista exclusiva ao Guia Marítimo durante a Intermodal South America 2026, avalia o cenário geopolítico turbulento e vê o país como protagonista em commodities, mas alerta para infraestrutura portuária no limite da capacidade, defendendo soluções multimodais como saída para custos e emissões.

A logística brasileira vive desafios crescentes que abrem espaço para operadores com escala e integração. Para Gustavo, o Brasil entra no radar global como fornecedor chave de commodities e alimentos, mas precisa de investimentos urgentes em infraestrutura.

Santi liga os pontos entre disputas EUA e China, efeito Trump e realocação industrial para Índia e Vietnã. "O impacto logístico dos conflitos atuais, do Oriente Médio à Ucrânia, vai durar até o primeiro e segundo trimestres de 2027", projeta, destacando a overcapacity chinesa e retaliações tarifárias. No Brasil, isso reforça o papel em recursos naturais, com otimismo de médio prazo puxado por influxo de investimentos.

O executivo classifica os portos como "no limite", vulneráveis a rupturas operacionais. Ele cita o caso recente de uma montadora de veículos elétricos em Salvador, que gerou 3 km de congestionamento em um mês de operação, forçando contingências como rodoviário de apoio via Santos ou estudos em Suape e Pecém. "São paliativos; o ideal é investimento estrutural", enfatiza, mencionando sinergias com a CMA CGM, por meio da Mercosul Line, empresas do mesmo grupo.

A CEVA mira neutralidade de carbono até 2050, com ações concretas como painéis solares em armazéns, veículos elétricos em curtas distâncias e conversão de rodoviário para cabotagem, reduzindo até 800 kg de CO2 por contêiner em rotas como Salvador a Santos. "A solução sustentável nem sempre é a mais barata, mas o engajamento cresceu; clientes já exigem isso em licitações", observa Santi, que vê no e-commerce um filão para logística reversa de embalagens.

Inovação é pilar da companhia, com centro de excelência em Marselha, parceria com Google e modernização de Transportation Management System (TMS) via Robotic Process Automation (RPA) e Electronic Data Interchange (EDI). Sobre crime organizado, ele alerta para rotas Norte-Nordeste, com uso de escoltas armadas e Prosegur em cargas sensíveis como farmacêuticos. Nos renováveis, Santi aposta no etanol brasileiro e green products (SAF, biodiesel), mas tempera: "Fósseis não somem rápido; o Brasil tem recursos, mas precisa de estômago para o ciclo".

A grande tacada da CEVA na feira é vender o shift rodoviário-cabotagem, integrando modais para cortar custos e emissões, apesar do transit time maior. "O Brasil depende demais de rodovias; o potencial é tremendo", conclui Santi, alinhado à multimodalidade que consagrou players globais.

Intermodal South America 2026 reforça o termômetro do setor, com foco em resiliência e descarbonização. A CEVA sai da feira com essa bandeira, mirando parcerias de longo prazo em um mercado que, para Santi, pune os fracos e premia os preparados.



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