Aliança investe pesado em retroáreas para superar gargalos portuários

O Guia Marítimo, idealizador da Intermodal South America, como de hábito, promoveu nova rodada de entrevistas com líderes do setor. O objetivo é avaliar o humor do mercado em relação aos problemas geopolíticos, sobrecarga da infraestrutura, em risco de colapso, metas ESG, inovação e medidas para mitigar crescentes riscos na segurança das cargas. E, como não poderia deixar de ser, pesquisa quanto aos resultados da empresa na Intermodal para aqueles que participaram.


José Roberto Duque, head de Comercial da Aliança Navegação e Logística, afirmou durante a Intermodal South America 2026 que o grupo tem direcionado recursos pesados para infraestrutura terrestre e retroportuária, visando contornar os atrasos crônicos nos terminais brasileiros. Em entrevista exclusiva ao Guia Marítimo, ele destacou que esses aportes, como depósitos em Rio Grande, Suape e Cajamar, além de frota rodoviária, representam uma resposta aos gargalos que limitam até o potencial de carga nos navios. "Estamos investindo dinheiro pesado fora dos navios para transformar dor em oportunidade", disse Duque.

O executivo descreveu 2026 como um ano de "reprogramação mental" no setor, impulsionado por guerras e disrupções globais que alteram fluxos de carga e elevam custos. "Todo mundo acorda de manhã para ver qual vai ser o dia", comentou, enfatizando a necessidade de alternativas diárias para clientes afetados por terminais lotados. A Aliança, parte do grupo Maersk, tem buscado soluções porta a porta, deixando para trás o modelo porto a porto, que Duque vê fadado às dificuldades atuais.

Duque deu ênfase aos aportes fora do transporte marítimo, comprando áreas e abrindo instalações como o depósito em Rio Grande e investimentos em Suape e Cajamar. Esses movimentos permitem pré-stacking de carga, recebendo volumes dias antes da chegada dos navios e aliviando a pressão nos gates dos terminais. "O armador que pensa só no navio está com problemas; nosso negócio é resolver da planta do cliente para fora", afirmou, notando que a frota de caminhões também integra essa estratégia integrada.

A infraestrutura portuária emerge como limitador crítico. "Temos espaço nos navios e carga disponível, mas os portos restringem movimentos por hora", criticou Duque, prevendo que o grupo Maersk terá novos terminais em Suape e Vitória nos próximos cinco anos. Sobre o STS 10 em Santos, ele foi direto: "não sabemos quando sai nem como vai nascer, mas o que sabemos é que já vai nascer cheio". Ele cobrou aceleração governamental, similar ao que ocorre em aeroportos, para evitar colapso nacional.

O setor age via ABAC e Centronave, pressionando por licitações, mas Duque lamentou resistências à verticalização. "Estamos na briga pelo STS 10, mas às vezes é mal visto investir em terminais", disse, revelando interesse da matriz no Brasil, Argentina e vizinhos. Além disso, parcerias globais com outros armadores buscam reforçar a confiabilidade das escalas de navios e melhorar as operações portuárias.

Preço e serviço ainda superam sustentabilidade na pauta dos clientes, apesar da cabotagem representar só 4% da matriz nacional – contra 30-35% em nações desenvolvidas. Na IA, a Aliança usa machine learning para previsão de volumes comerciais e estudos como curvas do Amazonas, mas enfrenta o desafio de formular perguntas certas para dados massivos.

Na feira, Duque apresentou dois grandes lançamentos para enfrentar os entraves logísticos: o terminal de Rio Grande, que funciona como alternativa para clientes barrados nos portos tradicionais, permitindo entrega direta à Aliança para pré-stacking e manuseio até o embarque. O segundo foco é a captação de carga de subida – volumes que saem do interior rumo aos portos –, um nicho com potencial de crescimento acelerado à medida que a ANTT ajusta tabelas de frete. "Hoje 60% do nosso volume já é porta a porta, mas ainda temos 40% para ganhar", projetou, prevendo expansão de dois dígitos em 2026.



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