Brasil vira pilar da estratégia global da DHL

O Guia Marítimo participou de uma conversa com Andrew Williams, CEO da DHL Express Américas, Agustín Croche, CEO da DHL Supply Chain na América Latina, e Erik Meade, CEO da DHL Global Forwarding na América Latina. Na leitura dos executivos, o Brasil reúne escala doméstica, base industrial diversificada e conectividade para ganhar relevância em um redesenho das cadeias de suprimentos marcado por nearshoring, regionalização e maior complexidade regulatória.

Esse movimento acontece em paralelo a uma tese mais ampla de mercado: a logística deixa de ser apenas função de suporte e passa a atuar como capacidade estratégica para sustentar crescimento, reduzir risco e acelerar expansão internacional. Dentro desse cenário, os executivos afirmam que o grupo vem sincronizando as agendas de suas três divisões, Express, Supply Chain e Global Forwarding, para capturar demanda em setores que devem puxar o ciclo até 2030 e, ao mesmo tempo, fortalecer o Brasil como alternativa regional a gateways mais congestionados.

A aposta declarada pela empresa parte do entendimento de que as cadeias globais seguirão mais fragmentadas, com tarifas oscilando e rotas sendo reavaliadas com frequência. Para a DHL, isso aumenta o custo do erro em documentação, eleva o peso da conformidade e reforça a busca por previsibilidade em prazos e capacidade, sobretudo para embarcadores que não conseguem absorver atrasos e retrabalhos.

Na visão apresentada, o Brasil também se beneficia de mudanças estruturais, como diversificação de parceiros comerciais e expansão de fabricação mais local, o que tende a elevar a demanda por serviços integrados e por soluções que cruzam transporte internacional, armazenagem e distribuição doméstica.

Entre os setores citados como motores dessa demanda, saúde e ciências da vida aparecem como prioridade. A DHL Supply Chain destaca a expansão da logística farmacêutica, com maior exigência de controle de temperatura, e aponta operações em cadeia fria e distribuição especializada como resposta a uma indústria mais regulada e sensível a prazos. Na mesma linha, surge a pressão operacional em períodos concentrados, como campanhas de vacinação que exigem distribuição rápida em janelas curtas.

O e-commerce entra como outro vetor de expansão, associado à mudança no perfil de consumo e à necessidade de redes de fulfillment mais capilares e flexíveis. A DHL afirma que vem ampliando operações ligadas a armazenagem, distribuição e logística reversa em modelo compartilhado, acompanhando o crescimento do comércio digital e a demanda por eficiência na última milha.

“O Brasil combina escala, demanda e conectividade regional como poucos mercados”, disse Agustín Croche, CEO da DHL Supply Chain na América Latina. “Nosso compromisso é de longo prazo e passa por ampliar infraestrutura, automação e capacidades por setor para acompanhar a próxima década de crescimento do país.”

No recorte industrial, a DHL Global Forwarding aponta que o Brasil vem ganhando tração em frentes como data centers e novas energias, além de manufatura e automotivo, o que eleva a necessidade de soluções multimodais e de capacidade para cargas complexas, sensíveis e, em alguns casos, superdimensionadas. Executivos citam, por exemplo, a movimentação de equipamentos de TI e energia com procedimentos específicos de manuseio e padrões de compliance mais rigorosos.

A estratégia descrita também é sustentada por investimento. A DHL Supply Chain afirma que há um plano regional de 500 milhões de euros para a América Latina, com cerca de um terço destinado ao Brasil, direcionado ao reforço de infraestrutura e capacidades setoriais, em especial em saúde e e-commerce. A empresa relaciona essa expansão a automação, digitalização e treinamento para responder a operações mais complexas e a um mercado de trabalho mais pressionado.

Na DHL Express, a prioridade é capturar a demanda de internacionalização das micro, pequenas e médias empresas. Executivos citam que o Brasil tem cerca de 22 milhões de MPMEs e que apenas 1% exporta hoje, e avaliam que existe espaço para ampliar a participação desse público no comércio exterior, desde que ele tenha acesso a orientação, previsibilidade e suporte aduaneiro para operar em novos mercados.

Nesse contexto, a DHL Express afirma que planeja investir R$ 118 milhões nos próximos anos para ampliar gateways, fortalecer a conectividade aérea doméstica e abrir aproximadamente 75 novas lojas no país até 2030. “O Brasil não apenas participa do comércio global, ele ajuda a moldá-lo”, afirmou Andrew Williams, CEO da DHL Express Américas. “O que torna o país especialmente estratégico é a força do setor de MPMEs, que impulsiona demanda por internacionalização e por logística com previsibilidade.”

O ponto mais estratégico do desenho é o papel do Brasil como hub regional. A DHL Global Forwarding sustenta que o país tende a deixar de ser apenas destino final e a atuar como plataforma de redistribuição de cargas vindas da Europa e da Ásia para outros mercados latino-americanos, em um arranjo baseado na complementaridade entre Guarulhos e Viracopos.

A lógica do “dual hub” combina conectividade de voos e capacidade para cargas de maior volume e dimensões especiais, com a premissa de manter a carga dentro da zona aeroportuária para reduzir tempos de permanência, custos e riscos. A DH empresa também afirma operar com mais de 600 voos internacionais por mês, o que permite consolidar embarques e desenhar novas rotas para aumentar flexibilidade de capacidade.

“Setores em crescimento no Brasil, de data centers e novas energias à manufatura avançada, precisam de soluções logísticas capazes de acompanhar essa velocidade”, afirmou Erik Meade, CEO da DHL Global Forwarding na América Latina. “Estamos ampliando nossas capacidades para dar mais flexibilidade e visibilidade a essas cadeias em um cenário global em constante transformação.”

A companhia compara esse caminho a hubs tradicionais como Miami, descrito por executivo como mais congestionado e caro em determinados fluxos, sugerindo que o Brasil poderia capturar parte dessa redistribuição regional se combinar capacidade, conectividade e execução aduaneira consistente.

Para sustentar esse reposicionamento, a DHL afirma investir em digitalização e em iniciativas com uso de inteligência artificial para elevar eficiência e reduzir erros, especialmente em rotinas ligadas a documentação e compliance. Em paralelo, a empresa reforça a integração entre suas divisões como forma de oferecer uma jornada mais completa ao embarcador, do transporte internacional ao armazenamento e à distribuição, incluindo demandas críticas de prazo.



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