CMA CGM e Copersucar concluem primeiro abastecimento de navio com etanol no Brasil
CMA CGM, Copersucar, Santos Brasil, AGEO Terminais e Bunker One, subsidiária do grupo dinamarquês Bunker Holding, concluíram em 12 de julho, no Porto de Santos, o primeiro abastecimento de um navio porta-contêineres com etanol realizado no Brasil. A operação, pioneira no país, movimentou 500 toneladas de etanol de cana de açúcar produzido pela Copersucar e teve como protagonista o CMA CGM Iron, primeiro navio porta-contêineres de 13.000 TEU do mundo equipado com motor tricombustível certificado, o Everllence B&W G95ME C10.5 LGIM.
O abastecimento exigiu coordenação logística entre diversos elos da cadeia. O etanol foi transportado até Santos, armazenado em infraestrutura dedicada operada pela AGEO Terminais e movimentado até o navio por meio de barcaça especializada, sob responsabilidade da Bunker One. A operação seguiu padrões internacionais de segurança e contou com apoio de autoridades portuárias, regulatórias e ambientais.
Após concluir a operação em Santos, o Iron segue para o Porto de Paranaguá, completando sua rotação nos portos do sul e sudeste do país. Em seguida, a embarcação parte para o Porto de Colombo, no Sri Lanka, um dos principais hubs logísticos do sul da Ásia, levando o etanol brasileiro para a rota asiática.
Christine Cabau Woehrel, vice presidente executiva de Ativos e Operações da CMA CGM, afirmou que a certificação do primeiro navio do grupo com motor tricombustível representa um marco tecnológico que abre caminho para o uso mais amplo de combustíveis de menor intensidade de carbono nas operações marítimas da companhia.
Santos como futuro hub de combustíveis de baixo carbono
A operação reforça o papel do Porto de Santos como candidato a hub de combustíveis marítimos de baixo carbono na América do Sul. A aquisição da Santos Brasil pela CMA CGM em 2025 é apontada pela companhia como reforço desse posicionamento estratégico.
Neusa Marcelino, CEO da CMA CGM Brasil, destacou que o grupo opera atualmente pouco mais de 150 navios aptos a utilizar combustível alternativo e que esse número deve chegar a pelo menos 200 embarcações até 2031. Segundo ela, o Brasil reúne um ecossistema de bioenergia consolidado, com expertise, capacidade industrial e uma cadeia de produção de bioetanol madura, o que torna o país estrategicamente relevante para a transição energética do transporte marítimo internacional.
Antonio Carlos Sepúlveda, CEO da Santos Brasil Participações, apresentou dados da trajetória de descarbonização do Tecon Santos. Segundo ele, o terminal reduziu suas emissões de quase 20 quilos de CO2 por tonelada movimentada, há mais de dez anos, para 14 quilos em 2023 e 10 quilos ao final de 2025, resultado de investimentos em eletrificação e automação. Sepúlveda ponderou que, ao contrário da descarbonização terrestre, a redução de emissões no transporte marítimo tende a ser mais onerosa, exigindo forte compromisso dos acionistas das empresas do setor.
Potencial de mercado para o etanol brasileiro
Tomás Manzano, presidente da Copersucar, afirmou que o projeto foi desenvolvido ao longo de dois anos e envolveu articulação com empresas, autoridades regulatórias e entidades portuárias. Segundo ele, caso 10% do consumo global de combustível da navegação passasse a utilizar etanol, a demanda potencial chegaria a 50 bilhões de litros por ano. O Brasil produz atualmente cerca de 37 bilhões de litros de etanol.
Manzano também citou desafios para a expansão do modelo, incluindo a necessidade de ampliar infraestrutura, desenvolver corredores verdes de abastecimento e avançar em regulamentações específicas para o setor. O etanol fornecido pela Copersucar segue os critérios de sustentabilidade do programa RenovaBio, com expansão da produção concentrada sobre áreas de pastagens degradadas e política de desmatamento zero.
Flavio Ribeiro, CEO da Bunker One, avaliou que a operação marca um ponto de virada para a indústria marítima global. Segundo ele, cerca de 70 navios da frota mundial já têm capacidade de operar com metanol, combustível compatível com o uso de etanol, e a expectativa é que outras 400 embarcações saiam dos estaleiros aptas a navegar com combustíveis não fósseis nos próximos anos.
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