CMA CGM e ENGIE vão desenvolver usina de biometano em Le Havre
Unidade deve começar a operar entre 2029 e 2030 e fornecer combustível renovável à frota da CMA CGM por meio da rede de gás europeia
O Grupo CMA CGM e o Grupo ENGIE anunciaram uma parceria para desenvolver uma unidade de produção de biometano na zona industrial-portuária de Le Havre, na França, área do HAROPA PORT e um dos principais polos logísticos da Europa. A usina deverá começar a operar entre 2029 e 2030 e produzir cerca de 7 mil toneladas de biometano por ano, volume destinado à frota da armadora.
A ENGIE será responsável por liderar o projeto, incluindo o desenho técnico e o processo de licenciamento. Se houver decisão final de investimento, a companhia também assumirá a construção e a operação da planta. A CMA CGM entrará como acionista minoritária, com aporte feito pelo PULSE, fundo de energia do grupo voltado a tecnologias inovadoras e infraestruturas que apoiem a descarbonização de suas atividades de transporte e logística.
A unidade vai converter resíduos de pecuária, biorresíduos domésticos e resíduos agrícolas em biometano. O combustível será entregue aos navios da CMA CGM pela rede de gás europeia, sob um sistema certificado de balanço de massa. Nesse modelo, o biometano injetado na rede é contabilizado e atribuído ao consumidor, sem que as moléculas cheguem fisicamente ao tanque do navio.
O processo também gerará 100 mil toneladas de digestato, material orgânico rico em nutrientes que pode ser usado como fertilizante natural por agricultores locais. Além disso, 13 mil toneladas de CO₂ biogênico serão recuperadas para comercialização, o que melhora o desempenho do projeto em redução de emissões.
Quando estiver em operação, a unidade deve evitar cerca de 23 mil toneladas de emissões de CO₂ por ano, segundo a CMA CGM. Todo o biometano produzido será dedicado ao abastecimento da frota de navios dual fuel do grupo.
O investimento se soma à parceria iniciada pelos dois grupos em 2021 para acelerar a transição energética. Para a CMA CGM, garantir acesso a combustíveis renováveis é condição para descarbonizar a frota. A companhia tem meta de neutralidade de carbono em todas as suas atividades até 2050, apoiada em duas frentes: reduzir o consumo de energia, por meio de excelência operacional e otimização de ativos, e ampliar a participação de energias de baixo carbono, com os ativos adequados e o desenvolvimento de cadeias de suprimento de combustíveis sustentáveis.
Até 2030, mais de 200 navios dual fuel, capazes de operar com biometano, biometanol e e-combustíveis, devem integrar a frota do grupo. Segundo a empresa, o biometano pode reduzir as emissões de gases de efeito estufa em pelo menos 67% ao longo do ciclo de vida, na comparação com combustíveis marítimos convencionais. Os navios do grupo movidos a GNL podem utilizá-lo sem modificações na infraestrutura ou nos motores.
Para a ENGIE, o projeto contribui diretamente para a ambição de chegar a 10 TWh de capacidade anual de produção de biometano na Europa até 2035, ante 1,2 TWh atuais. A CEO do grupo, Catherine MacGregor, afirmou que a parceria mostra como empresas industriais e de energia podem trabalhar juntas em soluções concretas para descarbonizar setores de difícil eletrificação, ao mesmo tempo em que fortalecem a soberania energética e o desenvolvimento dos gases renováveis.
As companhias informam que o projeto abre caminho para novas iniciativas na França e em outros países europeus, que já estão em avaliação.
Brasil também avança em combustíveis renováveis para navios
Enquanto o projeto francês ainda depende de licenciamento e decisão final de investimento, a CMA CGM já tem uma operação concluída no Brasil. Em 12 de julho, o grupo, a Copersucar, a Santos Brasil, a AGEO Terminais e a Bunker One realizaram, no Porto de Santos, o primeiro abastecimento de um navio porta-contêineres com etanol no país. Foram 500 toneladas de etanol de cana-de-açúcar fornecidas ao CMA CGM Iron, embarcação de 13 mil TEU com motor tricombustível certificado.
O caso mostra que a estratégia da armadora combina diferentes matérias-primas e regiões. Na Europa, a aposta recai sobre o biometano produzido a partir de resíduos. No Brasil, o foco está no etanol, apoiado em uma cadeia de bioenergia já madura. A operação reforça o papel do Porto de Santos como candidato a hub de combustíveis marítimos de baixo carbono na América do Sul, posicionamento que a companhia associa à aquisição da Santos Brasil, em 2025.
Os dois movimentos indicam que o acesso a combustíveis renováveis em escala será tão decisivo para a descarbonização do transporte marítimo quanto a renovação da frota. Na França, os próximos marcos são a decisão final de investimento e a conclusão do licenciamento da usina de Le Havre. No Brasil, a Copersucar cita entre os desafios a ampliação da infraestrutura, o desenvolvimento de corredores verdes de abastecimento e a regulamentação específica para o setor. O ritmo com que esses pontos avançarem vai definir quanto biometano e etanol passarão a fazer parte do dia a dia dos armadores.
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