Etanol brasileiro pode ganhar mercado na descarbonização do transporte marítimo, avalia CEO da SCA Brasil
Para Martinho Seiiti Ono, o biobunker pode avançar mais rápido que o SAF, mas o país precisa de regras claras, cronograma e infraestrutura portuária
A descarbonização da navegação pode abrir um novo mercado para o etanol brasileiro. A avaliação é de Martinho Seiiti Ono, CEO da SCA Brasil, que aponta o biocombustível como alternativa para reduzir a pegada de carbono do transporte marítimo e, ao mesmo tempo, ampliar os destinos da produção nacional.
Segundo Ono, a vocação agrícola do país, a extensão territorial e o crescimento do etanol de milho colocam o Brasil em posição favorável para abastecer esse mercado. Ele também lembra que a diversificação da demanda ganha importância diante do avanço dos veículos híbridos e elétricos no setor automotivo.
Na visão do executivo, o chamado biobunker, como é conhecido o biocombustível usado em embarcações, pode evoluir mais rapidamente do que o combustível sustentável de aviação (SAF). Ele argumenta que, na aviação, há diferentes matérias-primas e uma trajetória gradual de aumento da mistura. Na navegação, já existem testes com diversas proporções de etanol, incluindo o E100, com resultados positivos.
Esse movimento coincide com o desenvolvimento de uma nova geração de navios preparados para combustíveis alternativos. Parte dessas embarcações deve entrar em operação até 2030, o que abre espaço para grandes produtores de biocombustíveis se posicionarem como fornecedores. De acordo com Ono, Vale e Maersk já realizam testes e adaptações em embarcações para uso de biocombustíveis, com resultados positivos.
A estimativa mais recente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indica produção de 41,88 bilhões de litros de etanol no Brasil na safra 2026/27. O transporte marítimo mundial, por sua vez, consome entre 250 e 298 bilhões de litros de combustíveis por ano.
Para dimensionar o potencial, Ono faz um exercício: se o setor adotasse apenas 10% de etanol na mistura, o consumo poderia chegar a cerca de 30 bilhões de litros ou mais. O número é uma projeção do executivo, e não uma meta oficial.
Para que a oportunidade se concretize, o CEO defende que o país prepare sua capacidade produtiva e a infraestrutura logística. Os portos, segundo ele, também precisarão estar estruturados para abastecer os novos navios. Ono reconhece que o cenário é desafiador.
O CEO da SCA Brasil participou recentemente de uma reunião sobre o Programa Nacional de Combustível Sustentável de Navegação, em que o governo federal, por meio de diferentes ministérios e órgãos, começou a trabalhar na regulamentação do mercado. Para o executivo, ficou claro que é preciso estabelecer um cronograma, com metas e previsibilidade para investimentos, tanto na produção de etanol quanto na infraestrutura necessária.
O desafio agora é combinar as definições regulatórias com o prazo de chegada dos novos navios, previsto até 2030. A velocidade com que o país definir regras, metas e adaptações portuárias deve influenciar o espaço que o etanol brasileiro poderá ocupar nesse mercado.
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